ENVENENAMENTO IV

A vítima é a culpada

As empresas e as entidades que representam a indústria agroquímica não têm dúvida de que existe um grande culpado pela intoxicação crescente por agrotóxico em nosso País: o agricultor. Assim como a indústria tabagista e de bebidas, que , cinicamente, empurram para os usuários a responsabilidade pelos terríveis males causados pelas drogas que fabricam, elas culpam a vítima. O lema é: "se você fizer tudo certo, não há problema algum. Os agrotóxicos, em si, são inofensivos. Eles não agridem, eles protegem". O discurso hipócrita, repetido com insistência, mascara uma estratégia de marketing agressiva e que visa aumentar o consumo de agrotóxicos, o que significa multiplicar os lucros.

Respaldadas numa fiscalização inexistente, na cumplidade de profissionais (sejam eles agrônomos ou comerciantes) que se prestam ao trabalho de ludibriar os agricultores desavisados e na mídia, convocada para a apologia da produção recorde, elas conseguem, ainda, promover a sua condição de ambientalmente responsáveis, aquinhoando prêmios e matérias de destaque em importantes veículos de comunicação. Os argumentos utilizados para convencer os agricultores são conhecidos: não há alternativa para aumentar a produção, a não ser com o emprego maciço de veneno. As pragas existem, são cada vez em maior número e mais resistentes, e, portanto, não é possível dar-lhes trégua. Os trabalhadores rurais se sentem, em geral, acuados: pressionados para colher resultados e garantir o sustento dos seus, colocam em risco a sua saúde e de toda a família. Inúmeros outros fatores sócio-culturais concorrem para que isso aconteça. Em geral, os agricultores, particularmente os familiares, de menores posses, têm baixo nível de instrução e são incapazes de ler os rótulos e de entender o que está escrito nas bulas. Da mesma forma, não conseguem enxergar os interesses sórdidos dos que fabricam e comercializam nas falas melosas dos revendedores e capatazes das empresas, travestidos de extensionistas ou assistentes técnicos.

A situação tem sido identificada por inúmeros estudos e pesquisas , mas, apesar disso, nada se faz para modificá-la. Pressionados pela sobrevivência, os agricultores tornam-se, espontanea e docilmente, reféns de seus próprios carrascos. No seu realismo fatalístico, encaram , desesperançados a realidade, e entregam-se à própria sorte. Os técnicos das casas comerciais, geralmente engenheiros agrônomos, repetem, invariavelmente, os mesmos argumentos das empresas e da Andef – Associação Nacional dos Defensivos Agrícolas: somente a produção intensiva conseguirá matar a fome de uma população que cresce geometricamente e ela só é possível com o uso de agrotóxicos.

No trabalho de Jefferson José Oliveira-Silva e outros, que avaliou a influência de fatores sócioeconômicos na contaminação de agricultores de Magé/RJ por agrotóxicos , ficou patente que o baixo nivel de escolaridade tem a ver com a leitura inadequada dos rótulos dos produtos e, em consequência, com elevados índices de contaminação. "O baixo percentual de indivíduos que lêem os rótulos das embalagens pode ser explicado pelos níveis de escolaridade encontrados na comunidade. Mesmo dentro deste grupo é de se esperar que os textos não sejam perfeitamente interpretados, tanto pelo nível de escolaridade quanto pelo teor técnico das informações contidas nos rótulos, que cria uma série de barreiras à comunicação sobre o uso, os cuidados e os efeitos sobre a saúde e o ambiente". Embora um número razoável de indivíduos tenha relatado que utiliza equipamento de proteção individual, estes nem sempre são apropriados ou suficientes para a proteção de agentes químicos, como no caso da utilização exclusiva de botas e chapéus, relatada por 50% dos indivíduos. Isto tem sido observado em outros estudos realizados em países em desenvolvimento".

José Alberto Gonçalves Pereira, em dissertação apresentada à ECA/USP, em 2003, relacionava 8 causas importantes relacionadas com a intoxicação por agrotóxicos: falta de treinamento, não uso da roupa protetora, o descumprimento da obrigatoriedade da apresentação do receituário agronômico, o uso excessivo de agrotóxicos, a utilização de produtos proibidos, a presença de crianças e adolescentes no campo, a não fiscalização da aviação agrícola e a ausência de articulação institucional. O jornalista e pesquisador ressalta também a ausência de uma política pública consistente para atacar a questão, que vai desde a identificação precária dos acidentes causados por agrotóxicos ( o que mascara a magnitude do problema), à defesa dos interesses corporativos de profissionais e à fiscalização absolutamente deficiente. No caso da aviação agrícola, por exemplo José Alberto Gonçalves lembra que "a aplicação aérea é uma das atividades que mais gera problemas de intoxicação humana. Conta com uma fiscalização bastante débil por parte do Ministério da Agricultura e do DAC (Departamento de Aviação Civil). As próprias autoridades do ministério e do DAC admitem que há uma frota significativa de aviões agrícolas clandestinos não-investigada. Segundo Rüegg, a aplicação aérea acarreta perda de 10% a 70% dos produtos aplicados, que acabam contaminando outras áreas.

A contribuição mais relevante sobre a incidência de ruídos de comunicação no processo de divulgação dos agrotóxicos junto aos agricultores no Brasil consiste na pesquisa desenvolvida por Frederico Peres para obtenção de seu mestrado, em 1999. O pesquisador , ao analisar o perfil do regime de uso de agrotóxicos e das relações de trabalho na região da Microbacia do Córrego do São Lourenço, Nova Friburgo, Rio de Janeiro, descobriu que, por uma série de fatores sócio-econômicos e culturais e pela adoção de mecanismos utilizados pela indústria agroquímica, a comunicação rural contribui para criar a "necessidade" incontestável do uso de agrotóxicos e está a serviço de grupos de interesse. A partir de entrevistas realizadas com produtores e lideranças comunitárias, Frederico Peres descobriu aspectos fundamentais do processo repetido de sedução que cerca a utilização intensiva e inadequada dos agrotóxicos. O discurso persuasivo dos vendedores é explicitamente identificado pelos produtores, que reconhecem que a insistência do uso não se faz acompanhar por advertência com respeito aos riscos:

"Ah, eles não fala nada não, só dá indicacão e o tanto que usa…só fala o Sr. usa tanto disso, tanto daquilo, fala se tem um bicho assim, assim, ela já diz, tem que ser esse remédio (agrotóxico). Mas precarção, avisando a gente, nada não." (Valdecir, agricultor, 27 anos). 

O investigador constatou que 56% dos produtores consideram agrotóxicos como remédio, enquanto apenas 29% o identificavam como veneno. Como explica, em sua fala simples, Dermerval, 41 anos, agricultor: "a gente chama de remédio: tens uns vinte ano que a gente chama anssim, já tá acostumado. Quando usa, a planta melhora, então é um remédio." Não se trata apenas de uma questão de termo, evidentemente, porque a não consciência de que se trata de veneno, que fal mal à saúde e ao ambiente, desarma, naturalmente, o agricultor, tornando-o mais vulnerável à exposição. Não que ele não tenha a percepção dos males que o produto e sua aplicação podem causar à saúde e ao meio ambiente: a maioria esmagadora deles consegue apontar os seus efeitos maléficos, mas a ambiguidade existente na dicotomia veneno x remédio certamente o confunde.

Frederico Peres constatou, porém, que é menos palpável a percepção dos agricultores com respeito à contaminação dos alimentos. Somente 8% deles indicavam este fato como um dos problemas causados pelos agrotóxicos. Como eles ignoram os efeitos nocivos à saúde pela ingestão de alimentos contaminados e porque esses efeitos ocorrem a medio e longo prazos, dificultando o estabelecimento de uma relação causal, são céticos com respeito aos seus malefícios. Como explica Pedro, 49 anos, agricultor: " Creio que não (refere-se a problema causado por agrotóxico nos alimentos), porque todos tá usando, né, tem a necessidade…Não, não tem pobrema, porque se tivesse já tinha morrido uma porção, rapaz, porque tudo o que nós comemo hoje leva veneno, leva agrotóxico, se você tá comprando uma carne no açougue lá, aquilo leva agrotóxico". O pesquisador revela também a incomunicação que tipifica a interação entre os profissionais e os agricultores, pelo uso do jargão técnico e também pela descontextualização da problemática abordada. Compreender a bula, nem pensar, e é difícil até interpretar os pictogramas constantes nos rótulos, cuja finalidade é facilitar o entendimento das instruções.

O relato dos trabalhadores rurais sobre as ilustrações contidas nos rótulos e nas bulas é elucidativo. Ao vislumbrar a figura de um indivíduo lavando a mão, após o uso do agrotóxico, Antonio, um agricultor de 59 anos, afirmou que ele estava misturando o "remédio"; já Elizer, agricultor de 44 anos, ao ser apresentado a uma ilustração que mostrava o produto num lugar alto, de difícil acesso a uma pessoa ( a intenção era indicar que o produto deveria ser mantido trancado e fora do alcance das crianças), concluiu sem pestanejar: "não se deve usar o produto por cima da cabeça". A maioria encontrou dificuldade para decodificar o uso da letra X, que aparece com frequência nas ilustrações para indicar procedimento errado, proibido, não recomendável. Ao serem apresentados a uma figura que queria informar que não se devia transferir o produto de uma embalagem original para outra (com um enorme X sobre ela, indicando que isso não deveria ser feito), apenas 1 em 12 entrevistados percebeu que ali estava sendo representada uma negação/proibição. A experiência de compreensão de um folder explicativo sobre agrotóxicos também foi dramática para os agricultores, que não conseguiam entender o que estava escrito, bem como foi problemático o entendimento sobre o grau de toxidade dos produtos, indicados nos rótulos das embalagens por faixas coloridas. O uso de nomes técnicos (sulfato de atropina, agente emético etc) foi mais um problema entre os muitos encontrados na comunicação técnica, absolutamente inadequada para os perfis do usuários, geralmente constituídos de analfabetos ou pouco letrados.

Saborosa foi a alternativa proposta por um agricultor para uma informação encontrada na embalagem do herbicida Gromoxone, o agrotóxico mais utilizado naquela região.

O texto oficial, descrito por Frederico Peres, diz o seguinte:

"Esta formulação contém um agente emético, portanto não controle vômito em pacientes recém intoxicados por via oral até que pela ação do esvaziamento gástrico do herbicida, o líquido estomacal venha a ser claro."

Diante dele, 7 dos 12 agricultores consultados não conseguiram interpretar que era necessário deixar que a pessoa intoxicada botasse fora o veneno. Depois que foi explicado a eles, o que efetivamente significava, Francisco, 35 anos, saiu com a frase perfeita:

"Em vez disso aí, o sujeito não podia escrever ‘ se o caboclo beber o veneno, deixe ele vomitar até as tripa!".

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Uma resposta para ENVENENAMENTO IV

  1. Helio Silva disse:

    Muito interessante este comentário, fiz um trabalho de pesquisa recentemente sobre este tema, e os entrevistados agiram da mesma forma.

    A falta de uma politica séria nesse campo, é enorme, o cresciemento do consumo de agrotóxico, a lucratividade, supera em termos econômicos, qualquer tentativa de mostrar a realidade, a visão gvernamental é o desenvolvimento a quaquer preço, este preço que é pago com vidas humanas, com doenças incuráveis.
    Onde é que está a visão de futuro se estamos destruindo a nós mesmos…

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