VERDE QUE TE QUERO VER IV

 

Um parque nacional que está sendo loteado.

Uma floresta à venda. Preço tabelado. “Quanto é o lote? R$ 5 mil. Você compra um pedaço da Mata Atlântica. Está tudo loteado”, diz o montador José Firmindo. No meio da mata, as casas vão subindo. Parque Nacional da Serra da Bocaina, em Angra dos Reis. Lugar protegido por leis ambientais. Difícil é saber onde ele começa. Não há placas, nada anuncia os limites da área. Na falta de fiscalização, a turma do mestre de obras José Gonçalves vai ficando de agenda cheia. “Tem várias casas pra fazer. Esse aí quer fazer uma outra aí. Lá em cima está pintando pra fazer. Obra aqui não falta. Obra não falta. É um lugar muito faturoso”, diz ele. No parque, histórias de riqueza e destruição começam no mesmo lugar. No fim do século 17 começou a construção de uma trilha, o caminho do ouro que liga Ouro Preto, em Minas Gerais, a Paraty, no Rio de Janeiro. Pela trilha, os escravos carregavam as riquezas retiradas do país e que eram embarcadas rumo a Portugal.

Segundo os ambientalistas, a trilha também marca o início da aceleração da destruição da Mata Atlântica. Os caminhos abertos no passado deram origem às pastagens e à multiplicação de fazendas. Hoje, o que restou da Mata Atlântica sofre com o avanço desordenado das cidades. À beira da rodovia Rio-Santos, os sinais estão bem perto: os moradores que vão se instalando, derrubam a mata nos morros. Plantam bananas. Quando a lavoura acaba, vêm as favelas. Em Angra dos Reis, o verde das encostas, antes de difícil acesso, deu lugar ao tijolo e ao cimento dos barracos. Já nas ilhas da baía de Ilha Grande, são as mansões milionárias que avançam sobre a natureza. Ambientalistas traçaram o mapa da destruição. Usando imagens detalhadas de satélite, a organização não governamental SOS Mata Atlântica revela: as construções já apareceram até em áreas que deveriam ser protegidas pela União. “O que vínhamos observando nos últimos levantamentos é o tal efeito formiga, o desmatamento que ocorre em pequenas escalas e que não aparecem num levantamento, numa escala como a que a gente trabalha, numa área acima de 10 hectares”, avalia Márcia Hirota, diretora da SOS Mata Atlântica.

Construções ilegais de ricos e de pobres. Todos juntos em uma pilha de processos movidos pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Há 24 anos o ambientalista Ivan Neves acompanha os casos. Nunca viu ninguém ser punido. “Nós temos um conjunto de leis fantásticas nesse país que efetivamente nessa região ainda não vi serem aplicadas. Uma das certezas que a gente tem é a certeza da impunidade”, diz ele. Qualquer aluno de biologia sabe: quando a floresta some, a água dos rios também vai embora. Por isso, diz o ambientalista, ninguém sai impune quando a mata é derrubada para dar espaço às cidades. “Isso custa muito caro pra toda a sociedade. Cada casa que sobe o morro ocupa o equivalente a mais de 10 casas que estão num lugar bem colocado. Então é um custo muito alto pra sociedade que já não tem nem pra agüentar saúde, habitação, transporte e ainda tem que bancar essa conta que é da degradação da natureza”, acredita Mário Mantovani, diretor da SOS Mata Atlântica. O Ibama informou que já tinha conhecimento das construções irregulares no Parque Nacional da Bocaina – e que todas as obras foram embargadas. Segundo o instituto, os proprietários foram multados e denunciados ao Ministério Público Federal.

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