VERDE QUE TE QUERO VER I

 
Uma planta muito popular entrou na lista de espécies ameaçadas de extinção e virou símbolo da devastação da Mata Atlântica.

A bióloga do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Claudine Missen, se esforça, nos leva mata adentro. Entramos no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Rio de Janeiro. Ela procura pistas, colhe amostras, mas não acha uma espécie de planta que já foi bem comum por lá. “Ela já está na lista de espécies, na lista de extinção e ela continua sendo comercializada”, diz ela. O xaxim, um tipo de samambaia é também uma espécie de símbolo da devastação da Mata Atlântica. Por ironia se transformou, nas mãos de artesãos, um tipo de vaso disputado no passado por quem gostava da natureza. Hoje, continua à venda, mas nada vem de plantio para fins comerciais. O xaxim precisa, no mínimo, de meio século para ficar no tamanho procurado pelos fabricantes de vasos. Por isso, ele é arrancado da floresta por bandidos da natureza. Depois de duas horas de caminhada, finalmente achamos um exemplar, solitário. “Eles querem o caule do xaxim. Eles vão cortar o caule transversalmente e vão tirar a parte central, vão fatiar e vão aproveitar a parte externa”, explica Claudine.

O corte provoca uma destruição em cadeia. Sobre o tronco existem várias outras espécies de plantas menores. Da época do descobrimento até hoje, as matas foram sendo trocadas por plantações, pastos, casas, cidades. O verde foi trocado por dinheiro. Frente a frente, homem e natureza. A costa do Brasil era pequena demais para os dois. De cada dez brasileiros, seis ocupam hoje o espaço que já foi exclusividade de um dos maiores grupos conhecidos de plantas e animais de todo o planeta. O resultado desse duelo foi um desastre ambiental. Em pouco mais de 500 anos, a Mata Atlântica foi reduzida a pó – 1,36 milhão metros quadrados de vida selvagem viraram só 100 mil quilômetros quadrados de floresta sitiada. Hoje, de cada 100 árvores que existiam na mata, apenas sete resistiram em pé. A ciência tenta guardar pelo menos uma amostra do que virou raridade.

Durante um ano, pesquisadores brasileiros percorreram o país tentando reencontrar espécies de plantas que já são conhecidas desde a época do império e que estão catalogadas em exposições como uma do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. No fim do trabalho, veio a surpresa: o estrago das florestas é muito maior do que se imaginava. O número de espécies ameaçadas de extinção deu um salto de 107 para 1.538. Plantas que antes eram muito comuns por aí, mas que agora só podem ser vistas dentro de pastas de papelão em laboratórios. Lá, a natureza virou peça de museu. Os cientistas tentam, registram e descobrem o que podem. Mas a destruição é mais rápida. Ninguém sabe quantas espécies já sumiram levando embora segredos que a ciência nunca vai decifrar. “Qual o direito que temos de destruir a natureza?”, questiona Rafaela Forza, bióloga do Jardim Botânico – RJ.

Mas a bióloga Rita de Cássia Freitas não desiste. Decidiu procurar o que já não existe mais no único lugar possível. “Em vez de entrar na mata, tá entrando na mente das pessoas, na história da vida das pessoas”, fala Rita. Nas memórias de quem passou a vida assistindo à destruição. “Eu vim pra cá em 1968, teve uma derrubada de 75 pra cá. A mata de lá foi tudo tirada no carvão, na época”, conta Antônio Joaquim Francisco, agricultor. Antônio não estudou, diz que não entende nada dessas "coisas dos cientistas". Só lamenta quando lembra do lugar onde cresceu. “Lá não tem mais floresta mais. Só sobrou pasto e animal. É triste. Tudo tem um limite. E lá passou do limite”, comenta ele.

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