VERDE QUE TE QUERO VER III

 
Parques de Papel
 
 
Fauna e flora ameaçadas. O Parque Nacional da Serra do Cipó, em Minas Gerais, tem mais de 1,6 mil espécies de plantas. É o pouco que restou da Mata Atlântica, numa região rica em nascentes d´água que também estão correndo risco. “Sem a vegetação, os mananciais secam, vão embora, o solo fica nu, a enxurrada leva tudo para dentro do rio, entope o rio, assoreia tudo”, diz João Madeira, biólogo do Ibama. O perigo mora dentro da reserva. Casas, chácaras permanecem em terrenos que já deveriam ter sido desapropriados. Cerca de 10% da área do parque criado há 21 anos ainda são ocupados irregularmente. A lavradora Piedade Siqueira não aceita nem falar em desapropriação. “Eu não saio de jeito nenhum. Só Deus!”, afirma ela. No sítio vizinho, o tio dela, o lavrador Geraldo Siqueira, planta feijão, cria galinhas dentro do parque. É o morador mais antigo. “É bom demais morar aqui. Fui nascido e criado aqui. Não quero sair, mas pagando eu saio”, afirma.

Problemas fundiários, que ameaçam a Serra do Cipó e quase metade das 275 unidades de conservação ligadas ao Ibama. “Nós temos tido grandes dificuldades nesse intento por dois motivos: um, que os recursos financeiros para prover essas indenizações não são suficientes na velocidade que nós gostaríamos e, de outro lado, dificuldades documentais, administrativas. Às vezes os proprietários não conseguem provar a sua titularidade”, diz Valmir Gabriela Ortega, diretor de ecossistemas do Ibama. Pior ainda é nas unidades mais novas, como a mata escura, criada há dois anos. Até agora, não foi desapropriado nem um centímetro da reserva, que fica no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Onde hoje existe apenas pasto, já houve uma floresta de mata atlântica. Árvores de grande porte foram derrubadas. Um processo que continua no entorno da reserva.

Um cemitério de árvores é o rastro que leva às carvoarias. Forno aceso, fumaça. Ao lado da mata fechada. Pilhas de árvores cortados. Pilhas de carvão. Fazendeiros querem queimar áreas das propriedades deles que agora são parte da reserva ecológica. “O mato não nos dá retorno financeiro, a não ser na retirada dele pra fazer o plantio de capim para o criatório do gado”, afirma o fazendeiro Éder Botelho. A mata escura é um "parque de papel". Só existe no mapa e na lei. Na prática, não há cercas. Não há sede para a administração. Do alto, o analista ambiental registra as clareiras abertas por fazendeiros que há séculos exploram madeira de lei: agora, raridade, como o pau-brasil. O fogo é uma das conseqüências mais destrutivas da ocupação irregular. Queimadas abrem espaço para plantações e para o gado. O pasto se alastra como praga. “A presença do gado, o pastoreio, o pisoteio, o gado às vezes criado livre, então, adentrando a mata, impede a regeneração das espécies nativas”, aponta Valdomiro Lopes, analista ambiental do Ibama.

Sem previsão para as indenizações, o funcionário do Ibama tenta convencer os fazendeiros da importância de preservar a mata escura. É a casa de espécies raras, como o muriqui do norte, um dos 25 macacos mais ameaçados do planeta. Uma guerra que deixa marcas de muitas batalhas já perdidas contra o desmatamento, o fogo. “Só com a ajuda de Deus, às vezes apaga, né? Não existe uma estrutura montada para poder combater incêndio aqui na mata. O resultado é a devastação da floresta”, afirma Eufrásio Siqueira, sargento da Polícia Militar. Desde 2002, o Ibama contratou 1.413 funcionários. Apenas 441 foram lotados nas unidades de conservação. Valdomiro foi o único enviado para cuidar de 52 mil hectares de reserva da mata escura.

Na Serra do Cipó, são 33 mil hectares de parque e apenas 11 funcionários. Duas caminhonetes, as duas quebradas. No meio da mata, o técnico ambiental encontra árvores cortadas por invasores, que ele não consegue combater. “Hoje, nós temos esse limitador que é equipamento, como carro, equipamento de campo mesmo. Falta isso e sem esses equipamentos, não tem como a gente estar tendo um controle efetivo do desmate. O risco é o que nós estamos vendo aí. São quilômetros quadrados de floresta devastada, processos erosivos de todos os graus e a gente às vezes aí apático com essa situação”, acredita Ronaldo Silva Matos, técnico ambiental do Ibama. O Ibama declarou que tem feito um esforço muito grande para ampliar o número de servidores nas unidades de conservação. E reconheceu que é preciso melhorar os equipamentos dos fiscais.

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